terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O CATA-VENTO

“Certas pessoas parecem separadas da angústia apenas pela pobreza de sua imaginação, como se fossem por demais tolas ou por demais inteligentes para ter medo. Invejo-as às vezes, mas erroneamente. A angústia faz parte de nossa vida. Abre-nos para o real, para o futuro, para a indistinta possibilidade de tudo”. (André Conte- Sponville)

Uma após a outra, suas pálpebras foram se abrindo com certa dificuldade. Por entre nuvens carregadas, os primeiros raios solares se infiltravam através das cortinas e inundavam todo o quarto, trazendo à consciência o nascer de um novo dia. Ainda deitado em sua cama, sentia faltar-lhe as forças necessárias para se levantar e, por esta razão, apenas contemplava o ambiente ao seu redor. Percebeu então que as paredes e janelas tremiam de forma esporádica, lembrando pequenos terremotos. Mesmo os pingos de chuva que caiam lá fora e se chocavam contra o telhado, abafando um pouco os ruídos vindos da rua, não conseguiram dispersar seu pensamento, muitas vezes considerado rígido e obsessivo: “É, mais um caminhão que se vai... parece que outra construção teve início...”

Ao se pôr de pé, Guilherme, um jovem pesquisador independente, preparava-se para realizar suas tarefas rotineiras que tanto gostava nas manhãs de domingo. Num dia como aquele, onde os horários não tinham tanta importância e as pessoas deixavam seus carros nas garagens, realizar atividades como andar descalço sob o piso gelado, trocar a água dos cães e gatos, abrir portas e janelas e, principalmente, ir até o jardim e recolher o periódico entregue pelo jornaleiro, eram pequenos prazeres insuperáveis aos quais ele não abria mão, ainda mais se tratando de finais de semana. Infelizmente, naquele dia, seu caderno de notícias não estava lá. Roubado? Entregue em outra residência por engano? Não podia saber. Acreditou por um instante ser alguma travessura de seu cachorro Peter, entretanto, este dormia profundamente agarrado a um osso de brinquedo e não demonstrava preocupação com o que acontecia no mundo lá fora.

De volta ao interior da casa, mais precisamente à sala de TV, resolveu se distrair um pouco com a tela de alta definição enquanto os outros membros da sua família ainda dormiam. No relógio da parede era possível visualizar o horário: 6hs. Esticado como estava sobre o sofá, Guilherme pôde ouvir pequenas batidas na janela que dividia sua casa do terreno de seu vizinho Renato. Surgindo por entre as árvores, este o cumprimentou. Era um senhor de estatura mediana e, aposentado há muitos anos por questões de saúde, dedicou grande parte de sua vida a manutenção e conservação de seu quintal. Seja cortando galhos já ressecados pela troca das estações ou simplesmente aparando a grama alta, bastava apenas apurar um pouco os ouvidos para acompanhar as cantigas populares em forma de assobios, que anunciavam sua chegada nas primeiras horas da manhã. E, por entre as grades da janela, como fazia durante todo o ano, entregou a Guilherme um saco cheio de acerolas ao qual sentenciou: “Não esqueça que o primeiro copo de suco é meu, entendeu?”. Com um sorriso no rosto, acreditou ser esta a melhor forma de agradecer aquele gesto singelo.

Após colocar as acerolas no freezer e apanhar o molho de chaves em cima da geladeira, dirigiu-se até o portão e saiu sem deixar recado. Caminhando pela estrada recém asfaltada, acompanhou com o olhar as casas dos vizinhos e buscou seus rostos através da memória. “Infelizmente, a minha família não é a deles..., pensou. Teve a oportunidade também de visualizar, ao longe, a chaminé de uma grande empresa têxtil na qual trabalhou por alguns anos. Ela expelia uma fumaça negra, espessa, que logo foi desaparecendo no ar. Lembrou-se então do jornal. De repente, num gesto inconsciente, acelerou a passada e, mudando de forma abrupta a direção e ignorando o caminho até então percorrido, seguiu em frente rumo à única banca de jornal do bairro. Ao passar os olhos pelas publicações, nenhuma delas chamou tanto sua atenção quanto a conversa entre o dono da banca e outro cliente que folheava uma revista semanal. Ambos discutiam sobre uma notícia que se tornou capa dos grandes jornais e gerou grande repercussão: a construção de uma Usina Nuclear na cidade de Blumenau.

“Quanto custa?”, perguntou Guilherme ao colocar o jornal na mochila. “R$ 6,00, meu filho”, respondeu o proprietário. “Custa um a mais por causa do frete...”, tentou se explicar, após certo constrangimento gerado pelo valor cobrado ser diferente do que constava na primeira página. A discussão entre os dois senhores girava em torno de alguns assuntos interessantes, desde geração de energia até as dificuldades de se encontrar um local adequado para iniciar as obras. “Eles não percebem o perigo... este plano da Dilma de construí-las é uma loucura!... Duas no Nordeste, duas no Sudeste... e agora uma no Sul? Como assim, decisão irrevogável? Eles que vão construir uma na frente da casa deles!”, esbravejando ao mesmo tempo em que se censurava pela ingenuidade. Ao ir se afastando, estes pensamentos geraram vários tipos de sentimentos, como indignação e frustração, que acabaram contribuindo para o surgimento de uma intuição que lhe tomou de assalto a atenção e provocou uma onda de esbarrões entre ele e as inúmeras sacolas de compras carregadas pelos transeuntes vindos do mercado: “Prédio que nada, casa que nada, aqueles caminhões estão a serviço do governo...

No trajeto de volta para casa, seu coração já não batia tão forte e sua respiração aos poucos foi voltando ao ritmo normal. Ao optar por uma rua menos movimentada, foi de encontro às Areias Beckhauser. Era um local aonde inúmeros caminhões iam e vinham constantemente e várias pessoas utilizavam como via de acesso para irem pescar nos dias de folga. Ultrapassando o portão principal e esquivando-se dos montes de areia que obstruíam sua passagem, Guilherme foi descendo uma pequena ladeira até chegar à beira do rio. Lá encontrou Renato pescando na companhia de seus dois netos. Sem se fazer notar, sentou-se ao lado deles e apenas observou o momento em que o anzol era lançado pela primeira vez. Enquanto acompanhava este movimento, na outra margem do rio, acima das copas das árvores, seu senso de escala foi surpreendido pela visão de uma gigantesca turbina eólica. Tendo apenas sua hélice visível, começou a trocar palavras consigo mesmo, como de costume: “Desde quando ela está aí”? E, continuou, admirando-se do fato constatado: “Eu nunca tinha visto uma de perto... não havia percebido...”.

De repente, um assobio se fez presente. Não era o vento zumbindo por sobre suas cabeças ou os lixeiros trabalhando próximo dali; em Blumenau, o vento não se faz presente: apenas o calor e a chuva. E este fato podia ser constatado pela fina garoa que chegava e partia constantemente, e também pelas gotículas de água que iam acumulando-se por sobre as folhas e galhos estáticos. Renato sabia que não podia mais confiar nas previsões meteriológicas como antigamente, e acenava para seus netos e pedia que estes colocassem suas capas. Quando estes, Penélope e Ricardo, já apresentavam sinais claros de aborrecimento proporcionados por uma pescaria enfadonha e brincavam longe dali, Guilherme aproveitou para se aproximar e perguntou enquanto não tirava os olhos do enorme cata-vento: “Por acaso o senhor ficou sabendo da notícia sobre a usina aqui na cidade?”. Após forçar o molinete duas vezes para trás, sem nada conseguir fisgar, ele respondeu: “Hoje de manhã quando fui até o mercado comprar pão e leite para as crianças e depois passei lá na banca, o seu Ernesto me contou. Eu achei curioso. Na verdade eu nem tenho muita noção de como seja uma. Por acaso já escolheram o lugar?”. Guilherme ouviu com atenção aquela resposta e sua pergunta subseqüente, mas não respondeu. “Ainda não... mas pode ser em qualquer lugar Seu Renato... no meu bairro, no seu... na minha rua, na sua... de preferência perto de um rio... basta apenas eles quererem...”, respondendo apenas em pensamento, enquanto o bater de asas de uma ave na direção contrária à correnteza, rio acima, mostrava todo o empenho da natureza em sua luta diária por alimento.

Enquanto Renato remexia um pequeno pote onde guardava suas iscas e preparava-se para um novo arremesso, entregou uma garrafa para o jovem pesquisador, dizendo: “Quando nós chegamos aqui hoje de manhã, Penélope a encontrou no meio daquelas pedras e trouxe correndo para cá. Deve ser alguma carta de amor ou algo assim... Não sei... também pode ser outra coisa...”. Era uma típica garrafa de vinho, destas facilmente encontradas em mercados e mercearias. Não possuía rótulo e, dentro dela - como já seria de se imaginar - não havia nenhum líquido, mas uma mensagem. Ao retirar a rolha e desenrolar o laço que prendia o pequeno manuscrito, Guilherme começou ao lê-lo. “Leia em voz alta, fazendo o favor... Também quero saber o que está escrito nela”, pediu encarecidamente o velho senhor, logo após perceber a linha partida e ter a certeza de que não levaria nenhum almoço para casa naquele dia.

O LEGADO DE CHERNOBYL,

Algum cara cometeu um erro. Apertou o botão errado na hora errada. E em 20 segundos não era mais possível pará-lo.

Milhares e milhares de toneladas de material radioativo foram expelidos no ar, apanhados em uma enorme tempestade e começaram a mover-se através do país.

Setenta por cento desse material radioativo caiu na Bielorrússia. O reator não era deles.

As primeiras pessoas a aparecerem foram duas companhias de bombeiros.

Ivan Shavre, um dos sobreviventes: “Eu acordei em um hospital em Moscow. De início nós gracejamos sobre a radiação. Então nós ouvimos que um camarada começou a sangrar pelo nariz e pela boca. E seu corpo ficou preto. E morreu.”

Onde quer que exista radiação, as pessoas vivem com ela. Comem-na em seu alimento. Bebem-na em sua água.

Os garotos em Novinki que tem problemas são diagnosticados e categorizados… A, B, C, D.

D, é sem esperança, eles nunca vão ser seres humanos reais. Nunca vão ter muito. Todos vão a Novinki.

E, uma vez que estejam lá, se sobreviverem e viverem, serão enviados ao asilo principal.

Era como se uma raça diferente estivesse sendo criada, pois eles parecem humanos, mas todos obviamente tinham problemas.

Alesya era uma menina quando foi diagnosticada com câncer. Tinha sido exposta à radiação quando era muito pequena, com mais ou menos 2 anos, quando começou a correr para brincar.

E nesse dia a chuva era escura e oleosa e ficou conhecida como a chuva negra de Chernobyl. Nove anos depois ela estava com leucemia.

Eu me encontrei com ela no hospital quando ela tinha dezesseis. Esta garota de dezesseis anos era muito bonita. Eu voltei no dia seguinte e Alesya estava em coma. E seus pais estavam devastados. Era um dia terrível para se ver uma mãe perder sua filha.

Antes de começar a tirar fotografias eu perguntei se não tinha problema. E sua resposta foi, “sim, nós queremos que todos saibam o que eles fizeram”.

O horror que foi aquilo, nós não podemos nem mesmo ousar pensar que possa acontecer novamente.

Todos dizem que nunca acontecerá. Pois é, nós sempre falamos isso, nunca acontecerá, mas tudo que nós humanos fazemos quebra. Tudo quebra. Tudo se desgasta...

Belarus, Ucrânia, 1997.

Paul Fusco, fotógrafo.

Suavemente, foi sentindo seu rosto todo sendo coberto por uma fina camada e gotas começaram a cair da ponta de seus cabelos, dissolvendo letras, distorcendo frases, mudando significados. Mesmo com o término daquela leitura, seus dedos não conseguiam largar aquele pedaço de papel que por acaso tinha chegado até suas mãos. A emoção era visível, ainda mais, talvez, pelo badalar dos sinos da igreja evangélica que anunciavam o encerramento do culto dominical. “Pois é, acho que tá na hora de eu ir”, foi falando Renato, na mesma hora que começava a recolher seus pertences. “Minha mulher já deve estar indo para casa preparar o almoço, e quando ela souber que não vai ter peixe hoje, tu já sabes!”, rindo de forma descontraída ao ir se levantando. E, ao ficar de pé, gritou: “Penélope, Ricardo, está na hora da gente ir almoçar!”.

Ao acompanhar a chegada das duas crianças, que vinham em sua direção, Guilherme se lembrou de Alesya. A menina do relato de Fusco. A garoa que caia em Blumenau também o recordava. Olhando para aquela família, em seu intimo, ele próprio se questionava se não estava se preocupando demais, desperdiçando seus dias com preocupações futuras, com algo que poderia nunca acontecer. “Eles dizem que elas são seguras, que são a única forma de evitar o aquecimento global, que as chances de voltar a acontecer uma catástrofe são remotas... Eu também gostaria de ser como eles, mas não posso. Parece até que ela não sabe que uma única decisão pode mudar o destino de um monte de gente. Parece até que eles não sabem que existem outras alternativas...”. Guilherme sabia de tudo isso e também de muito mais, mas a decisão já tinha sido tomada. Por isso jogou a garrafa de volta ao rio, sem hesitar. Renato já subia a ladeira segurando a mão de cada um de seus netos e não se voltou mais para trás, até que Penélope desvencilhando-se do avô voltou para perto do jovem pesquisador e lhe ofereceu um presente: um cata-vento de brinquedo, em forma de um gira-sol. Antes que o jovem o pegasse e levasse junto para sua casa, a garotinha o colocou perto de seu rosto, fechou os olhos e assoprou. Ao qual ele pensou: “É, a gente só precisa assoprar...”

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

BLUSCHWITZ

Já fazia alguns minutos que aquele homem contemplava a arquitetura do Teatro Carlos Gomes. Imóvel, indiferente a tudo que acontecia ao seu redor, sua atenção voltava-se para a pequena sacada postada no alto do prédio. Com seus Ipês florescendo e o desabrochar das flores decorando todos os cantos da cidade, Blumenau era realmente um pedacinho da Alemanha no Sul do Brasil. Era o que qualquer turista que visitasse os principais pontos turísticos pensaria ao se deparar com tamanha beleza oferecida pela mãe natureza. Entretanto, o homem ali parado não era nenhum visitante, mas antes, um autêntico germânico, cujas raízes genealógicas remetiam à Berlim do século passado. E esta lembrança o enchia de orgulho e fazia com que tivesse a certeza de que aquela construção não havia sido realizada por acaso.

Momentaneamente, seus olhos se fecharam. Do jardim do Teatro, mais parecendo brotar do próprio gramado, violinos executavam uma bela melodia que embalavam e traziam à tona sonhos de grandeza há muito adormecidos. “Isso só pode ser Wagner... como amo as Valkyrias!”, falando consigo mesmo, em meio a movimentos que lembravam um maestro conduzindo uma orquestra. De repente, como não acreditando naquilo que seus próprios olhos lhe mostravam, sua visão voltou-se novamente para a fachada em forma de quepe e, em meio a gestos entusiasmados e frases inflamadas que clamavam por ordem e justiça, uma emblemática figura abandonara os livros de história e se fazia ali presente: era Adolf Hitler. E, das cinco janelas um pouco mais abaixo, seus capitães Göring, Himmler, Goebbels, Heydrish e Mengele, o reverenciavam com o tradicional cumprimento nazista.

Sonho? Delírio? Se questionado, talvez ele não soubesse dizer ao certo. Mas um leve toque em suas costas o despertou e uma pergunta veio em sua direção: “Com licença, mas este é o prédio da Sociedade Dramático-Musical Carlos Gomes?”. Ao se virar para o lado, um indivíduo alto, de cabelos loiros, pele clara e olhos azuis, trazendo consigo uma câmera fotográfica pendurada em seu pescoço, o encarava e aguardava ansiosamente uma resposta. “O próprio!”, respondeu-lhe secamente. “Curiosa aquela fachada e a pequena sacada, não acha?”, indagava o visitante, no intervalo de uma fotografia e outra. “Foi construída para a vitória do nosso Führer e seria a sede do 3º Reich aqui na América Latina se aqueles malditos não tivessem estragado tudo...”, respondeu o Blumenauense com um sorriso no rosto, sem conseguir esconder a nítida satisfação proporcionada por aquelas palavras. “Por acaso, me chamo Assis”, apresentou-se a estranha figura, estendendo o braço em sua direção. “Venho da cidade Gaúcha de Cândido Godói, e ouvi várias histórias interessantes sobre este lugar”, continuou o turista. “Seja bem-vindo à nossa cidade. Meu nome é Adolar e meus avôs vieram para cá depois da Segunda Guerra”, disse o Blumenauense, apertando a mão do visitante com força. E, continuou: “Sabe, é uma desgraça que a história não possa mais ser mudada... Com certeza nós estaríamos em outra posição... não precisaríamos ter de caminhar na mesma calçada que aqueles maca... nem ter de agüentar aqueles vermes jogando lixo pelo chão. É realmente uma pena que não vencemos a guerra, porque aí tudo seria diferente!”. Após aquele desabafo, ambos calaram-se por algum tempo, com Assis regulando o foco de sua câmera e Adolar encarando seu próprio punho cerrado.

Com o silêncio reinando temporariamente entre os dois homens, um grupo formado por artistas locais preparavam-se para encenar uma apresentação no hall de entrada do Teatro. O turista gaúcho observava intrigado e tentava imaginar que tipo de peça seria ali executada. Subindo os degraus da pequena escada, um dos atores posicionava uma mesa e sua respectiva cadeira, daquelas encontradas em escolas e, ajeitando-se da melhor maneira possível, uma menina aparentando não ter mais do que 15 anos de idade sentou-se e começou a escrever ininterruptamente em um diário cujas páginas já bem amareladas denunciavam seu avançado estado de deteriorização. Formando um círculo ao redor da jovem, outro integrante desenrolava alguns metros de arame farpado, que impediam tanto sua fuga quanto a aproximação de outras pessoas. Assim, segurando um lápis entre os dedos, ela levantou a cabeça e olhou para os dois homens estáticos em sua frente, indagando: “Quem fez isso contra nós? Quem nos separou de todo o resto? Quem nos colocou neste sofrimento?*”

Após uma seqüência de flashes disparados pelo turista de Cândido Godói, este voltou a fazer inúmeras perguntas ao blumenauense: “Você sabe quem é esta menina? Ou qual é o nome desta peça? Mesmo aparentando certo descontentamento, ele tentou sanar todas as suas dúvidas: “Seu nome é Anne Frank. Era uma judia que viveu com os pais escondidos durante três anos no interior de uma fábrica enquanto nós caçávamos os judeus. Todos os anos realizam esta encenação ao ar livre. Na verdade eu nunca li seu diário. Não tenho tempo para infantilidades. Dizem que ela foi levada para um campo de concentração e morreu meses depois. Dizem também que seu corpo foi jogado em uma vala qualquer. Sobre o nome “Blushwitz”, não sei o seu significado ao certo, mas acredito ter alguma relação com estes dois nomes: Blumenau + Auschwitz. “Deve ser isso mesmo...”, pensou. Surpreendentemente, como se a menina acompanha-se atentamente a conversa dos ali presentes, manifestou-se outra vez: “Para mim é praticamente impossível construir a vida sobre um alicerce de caos, sofrimento e morte. Vejo o mundo transformado aos poucos numa selva, ouço o trovão que se aproxima e que, um dia, irá nos destruir também, sinto o sofrimento de milhões. E, mesmo assim, quando olho para o céu, sinto de algum modo que tudo mudará para a melhor, que a crueldade também terminará, que a paz e a tranqüilidade voltarão.”*

Retirando a câmera do pescoço e depositando-a no chão, Assis, o turista de Cândido Godói, subiu alguns degraus e se aproximou da menina. Sentindo a nuca aquecida pelos primeiros raios solares daquela manhã de primavera e o coração disparado pela visão do arame farpado junto aos seus pés, ele começou a falar com os olhos umedecidos: “Olha, da onde eu vim, dizem que eles estiveram por lá... ninguém sabe ao certo se é verdade... ele chegou e disse que era médico... perguntou sobre as grávidas... se é verdade eu não sei... espero que não... eu mesmo talvez seja... como posso viver com esta dúvida? Será que nós não passamos apenas de um experimento macabro? E, ao tentar adentrar a linha demarcada pelo arame farpado, dois dos artistas da companhia teatral – agora vestidos com uniformes nazistas -, agarraram seus braços e o arrastaram de volta para junto da platéia. Esta, surpreendida pelo realismo e paixão emanadas da apresentação, responderam com gritos, assobios, palmas e com o braço direito estendido para o alto.

Depois de recuperar o fôlego e reconstituir a calma, o turista de Cândido Godói pôde perceber que o jovem blumenauense já não estava mais no meio daquela multidão, mas sim atrás dele, próximo a uma fonte que decorava e embelezava ainda mais o jardim do Teatro. Dando às costas para a menina e à fachada histórica, ele caminhou até lá e observou cada detalhe daquela obra de arte, minuciosamente, encantado principalmente com todos aqueles rostos talhados em ferro, que abasteciam com água o interior da fonte. Contemplando o reflexo de sua própria imagem, Adolar comentou: “Fiquei curioso com a sua história. Qual a ligação entre a sua cidade e o Nacional Socialismo? Acredito que você seja um dos nossos... sua aparência não nega. Sabe, eles não compreendem... faz anos que venho a este lugar... é o único lugar em que me sinto verdadeiramente feliz... aquele trabalho maldito... aquele ônibus maldito... eu os vejo desfilando em seus carros... como eu os odeio... não passam de seres inferiores... Vermes! Porque não vencemos... com certeza eu não estaria nesta condição miserável!”. Ao qual, voltando-se e dando uma espiada por sob o ombro para a pequena sacada, o turista gaúcho respondeu: “Josef Mengele... o Anjo da Morte... médico nazista. Não me importa seu nome ou como o chamam. Você sabe algo sobre ele? Pois é, eu também gostaria de saber mais. É provável que tudo não passe de folclore, lendas, só para trazer mais turistas. Acho que a idéia é muito diferente da coisa em si. Os campos, os fuzilamentos, os gritos, as fotografias, tudo aquilo foi real! Eu posso sentir isso dentro de mim... Talvez ainda não tenhamos a real noção do que foi tudo aquilo, aquele período”.

E, desta forma, entregues à reflexão e perdidos nos mais diversos pensamentos, tanto Assis quanto Adolar sentiam suas vidas entrelaçadas, unidas por acontecimentos aos quais não tiveram participação. Estavam ali, sim, não por suas próprias idéias e ações, mas porque a vontade de outros ainda moldava suas vidas. Por outro lado, independentemente deste peso enorme em seus corações e absortos como estavam por aquelas lembranças, algo pôde despertá-los daquele transe momentâneo no qual se encontravam e lhes trouxe novamente para a realidade: um sujeito, aos tropeções, vinha correndo na direção de ambos e gritava a plenos pulmões o nome de Assis. Era o irmão do turista de Cândido Godói. Sua aparência não se diferenciava muito da dele: alto, loiro, olhos azuis e pele clara; na realidade, tratava-se de gêmeos. E um pouco mais ao lado, ainda contemplando aquelas duas imagens exatamente iguais refletidas sob as águas da fonte, Adolar, um alemão de Blumenau, ouviu o som repetitivo de uma buzina, a qual fez com que seu rosto se voltasse em direção à rua XV de novembro, provocando um arrepio que percorreu todo o seu corpo e o fez esfregar os olhos como aqueles que acabam de estar presenciando uma miragem: estacionado em frente ao Teatro Carlos Gomes estava parado um ônibus de turismo vermelho e branco e, de seu interior, começaram a desembarcar inúmeros pares... não... trincas de gêmeos, todos com as mesmas roupas, os mesmos olhos, o mesmo terror...

Este conto é uma homenagem para todas as almas roubadas pelo nazismo. Em especial para Anne Frank. Eles podem ter roubado sua juventude e seu sonho de viver, mas seu coração pulsa em cada palavra, sentimento e lágrima contida em seu diário. E, independentemente de todas as atrocidades que eles cometeram e, em detrimento daqueles que ainda cultivam ideais em relação ao passado, seu espírito continua vivo, e impedirá que o mal retorne outra vez.

*Passagens retiradas do relato documental O Diário de Anne Frank, escrito entre 12 de junho de 1942 e 1º de agosto de 1944.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Angústia e Solidão

“Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder a pergunta fundamental da filosofia”. (Albert Camus)

Depois de dias mal dormidos e um sentimento de angústia crescente como há tempos eu não sentia, me lembrei da citação aí de cima. Resolvi voltar a olhar para esta questão com mais seriedade. Saber se vale ou não a pena viver. Vale? Não vale? É nisso que andei pensando nestes dias. De certo ponto parece ser um assunto ridículo, ainda mais se levarmos em conta que tenho tudo aquilo que preciso para levar uma existência digna: casa, comida, trabalho, amigos e o conhecimento necessário para seguir em frente. Entretanto, sou obrigado a admitir uma coisa para vocês: sou um grande mentiroso para comigo e para com os outros. Como sei disso, talvez você esteja se perguntando, não? Respondo com o maior prazer: constato isso todos os dias antes de dormir. Quando está tudo em silêncio. Quando o dia está chegando ao fim. Quando não sei mais o que fazer...

É claro que teorizar sobre o suicídio é fácil. Você não morre por pensar. Quando não se pensa nestas coisas é porque já se está morto e não se percebe. Mas não precisam se preocupar, eu não vou embora. Não tenho coragem para isso. É triste pensar nestas coisas quando se é jovem, ainda mais quando existem tantas coisas para me distrair por aí. Mas eu não consigo. Devo buscar a coragem dentro de mim e dizer: “Olha, você não quer acreditar na realidade dos fatos, você sabe que não importa o que faça nada vai mudar, que este mundo é uma mistura de beleza e tristeza, e que angústia e solidão nascem da compreensão. Compreender que todas aquelas vezes que você parava e fechava os olhos para ouvir as diversas vozes dentro do ônibus, nada mais eram do que um eco dentro de sua pequena prisão: uma prisão feita de carne!”. Ora, se estou preso, encarcerado aqui dentro, e ando de um quarto para o outro, de um canal de televisão para outro, de um número de telefone a outro, e tenho vontade, às vezes, de sair desta prisão, o que posso fazer?

É claro que se pode deixar o tempo e os dias correrem. Isso não requer nada de mais, apenas covardia. Para se ter uma idéia de como a angústia dentro do peito - sentimento este que muitas vezes não conseguimos entender -, sufoca e nos faz olhar para os objetos ao nosso redor de uma forma apática, basta saber que dormir é o melhor remédio para este mal. Deitar-se de forma consciente, sem sono, sem necessidade aparente. Perder a consciência de forma tirânica. Esquecer de tudo por livre e espontânea vontade. Dormir para não precisar mais pensar me nada.

Então, o que representa o suicídio? Sou capaz de responder a pergunta primordial da filosofia? Sinceramente, não. Conheci pessoas que já levaram a cabo esta idéia, mas elas tinham motivos sérios para justificá-las. Meu único motivo é que não consigo entender o motivo de tudo isso. Sim, sou alguém que nasceu e por isso precisa viver, mas realmente existem momentos que nada mais faz sentido.

Filosofar é ser criança; é perguntar e voltar a brincar; é amar e não se preocupar.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Lágrimas Desperdiçadas

“A sinceridade é o único modo de falar e escrever que não passará jamais de moda. O argumento desprovido de poder, de ir ao encontro de minha própria prática, falhará também em ir ao encontro da vossa. Escreve para um público eterno aquele que escreve para si mesmo”. (Ralph Waldo Emerson)

Ultimamente, ando pensando se realmente devo sofrer nesta vida. Sim, eu sei que as pessoas se acostumaram com a idéia de que através dele a gente cresce e aprende; mas, para falar sinceramente, não posso concordar com esta afirmação. Não concordo porque não seria justo. Afinal, já não estamos aqui sem saber o motivo? Sem saber o que vai acontecer no futuro? Isso já não seria motivo suficiente para sentir o peito apertando?

Acredito que todos os nossos problemas são originados dá nossa falta de visão de mundo. Não existe outra explicação. Eis o fato de que nos destrói por dentro: nascemos, lutamos e morremos. E isso é o que acontece na maioria das vezes. Entretanto, além de sermos jogados neste Planeta sem sabermos ao certo os motivos, existe algo que nos foi dado como compensação para nos amenizar da dor desta jornada: um cérebro.

Tanto o cérebro quanto a visão devem trabalhar constantemente juntos para nos guiar adiante. Para começar, somos egoístas a partir do momento que vivemos e não pensamos naquilo que nossas ações podem desencadear; principalmente, quando estamos falando da alteração do destino de outras pessoas. Pode parecer absurdo, mas no momento que eu penso sobre o mundo e minha participação nele, evito sofrimento para inúmeras pessoas.

Vou dar um exemplo simples: Numa manhã qualquer, num dia frio e chuvoso, aguardo a chegada do ônibus que vai me levar até o trabalho. Minhas meias estão encharcadas e não sinto minhas mãos e orelhas. Eu embarco, pago a passagem e busco com o olhar um lugar para me sentar. Não existe nenhum disponível. O trânsito está um caos. Chegarei atrasado mais uma vez. Olho pela janela e vejo um outdoor com a propaganda de uma moto qualquer. O que passa pela minha cabeça neste instante? Eu iria economizar uma grana e ganharia tempo. Pronto! Já conhecemos o restante da história.

Não importa se sofro um acidente de moto ou de carro, se bebo e causo angústia aos meus familiares ou se resolvo usar os outros para suprir minhas necessidades materiais ou emocionais, a partir do momento que minha mente toma as decisões por mim outros irão sofrer. Não me importa que Jesus tenha morrido na cruz, de que meus pais não tiveram o discernimento para mudarem suas próprias vidas, de que a Sociedade espera que eu faça parte dela, na hora que o dizer não fez parte da minha vida, eu deixei de sofrer, e de derramar lágrimas em vão.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Adaptar?...Ou será suportar?

“Que esperança existe de que, como humanidade coletiva, sejamos capazes de controlar as forças que desencadeamos?” ( Anthony Giddens)

“O perigo envolvendo as Mudanças Climáticas”... já faz algum tempo que não ouço mais este tipo de alerta. Parece que a poeira baixou. O assunto deixou às páginas dos jornais, o horário nobre dos noticiários, as capas das revistas semanais. As pessoas já não pensam mais neste assunto. Mas passados quatro anos desde o lançamento dos Relatórios ambientais do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, de 2007, e da conferência do Clima de Copenhague (COP 15), em 2009, o que aconteceu com toda aquela preocupação ambiental com o futuro dos países mais pobres e com as catástrofes ambientais que podem se agravar nas próximas décadas se nada for feito para conter as emissões de gases (CO²) que provocam o aquecimento do planeta Terra? Acredito que todo este silêncio atual já anuncia a sentença pela qual todos os seres humanos – tanto aqueles que caminham atualmente quanto os que ainda não foram concebidos - foram sentenciados por nossos atuais governantes: adaptar-se e suportar todas as mudanças no clima que surgirão num futuro próximo.

Pode parecer ridículo, mas quando olho as pessoas – principalmente as crianças -, se divertindo nos parques de Blumenau nos finais de semana sempre me lembro “Do perigo envolvendo as Mudanças Climáticas”. É realmente uma ameaça silenciosa. Enquanto a bola de futebol rola tranquilamente pelo cimento, a fila do escorregador cresce, as conversas nos bancos vão se animando e os aparelhos de exercícios trabalham a todo vapor, algo sobe até os céus e muda não só a vida daquelas pessoas, mas também a de indivíduos que vivem a milhares de quilômetros de distância: a fumaça negra que sai dos escapamentos dos carros todos os dias e vai parar na atmosfera terrestre. É provável que, na verdade, os governantes tenham apenas levado a cabo o nosso desejo inconsciente de não se incomodar, de escapar da responsabilidade de nossos atos, de relegar àqueles que ainda não estão entre nós a solução deste problema. Pode ser...

“As estações já não são mais como antigamente”... Esta é apenas uma das colocações que escuto minha avó fazer ocasionalmente em relação às tempestades, ondas de frio e calor intensas e a dificuldade em prever se vai chover ou não. Pode parecer bobagem, mas os anos que vão se passando trazem consigo alguns sentimentos de estranhamento em todos nós. A catástrofe ambiental de 2008, uma das maiores da história de Blumenau, é apenas uma delas. Tivemos anos em que se passaram meses sem cair uma única gota de chuva em nossa cidade. Mais recentemente, a intensidade na queda de relâmpagos também deixou muitos perplexos. Infelizmente, não são provas cientificas, mas apenas indícios de algo que está no ar.

Que me desculpem os teóricos e os lideres mundiais, mas para mim – no caso específico das mudanças climáticas -, adaptar é o mesmo que suportar: Suportar as mesmas visões e sofrimentos de 2008. Uma chuva ininterrupta de três dias, casas vindo abaixo, pessoas sem luz elétrica, sem água potável, sem comida, sem notícia de seus entes queridos. Eu não gostaria de vivenciar novamente aquele mês de novembro. Entretanto, parece que no momento que a reunião de Copenhague falhou no diálogo entre as nações para se chegar a um consenso do que se fazer, silenciosamente, de dentro de nossas casas, todos nós apertamos as mãos e olhamos pela janela a chuva cair mansamente... e decidimos esperar.

domingo, 24 de abril de 2011

A insustentável leveza das idéias

“Faz parte do amor a profundidade e fidelidade do sentimento, pois sem elas o amor não seria amor, mas simples capricho. O verdadeiro amor sempre pressupõem um vínculo duradouro e responsável. Precisa da liberdade para a escolha, não para a realização. Todo amor verdadeiro e profundo é um sacrifício. A gente sacrifica possibilidades, ou melhor, as ilusões de suas possibilidades. Se não houvesse necessidade desse sacrifício,nossas ilusões impediriam o surgimento do sentimento profundo e responsável e, com isso, ficaríamos privados também da possibilidade de experimentar o verdadeiro amor”. (Jung)

Há alguns anos, quando estava na faculdade e cursava jornalismo, tive a oportunidade de me defrontar com pessoas de idéias incomuns e estilos de vida alternativos. Muitas delas provenientes das ciências humanas, mais precisamente da Filosofia, Psicologia, Sociologia e Antropologia. Nelas, um ponto se destacava e era sempre sinônimo de discussão: a liberdade. Mais precisamente: a necessidade de tornar-se um espírito livre. Uma existência capaz de adentrar as inúmeras moradas da alma que caminham pelas grandes cidades e não criar vínculos duradouros; percorrer as páginas dos livros sagrados e fechá-los sem presenciar nenhum tipo de marca permanente; enfim, viver suas próprias idéias. Porém, neste instante, aquela velha dúvida que me assaltava já naqueles tempos retorna e eu a repito a mim mesmo: será mesmo possível?

Uma das questões mais polêmicas envolvia a idéia de viver o amor livre. Ela baseava-se num acordo de livre vontade, onde ambas as partes viviam as mais diversas experiências sem correr o risco de apresentarem nenhum tipo de remorso ou sentimento de culpa. Era exercitado um desapego tanto físico quanto emocional. Busco na memória este assunto porque as pessoas que viviam estas idéias naquela época – e que provavelmente vivem até hoje - não falavam apenas da boca para fora, na intenção de impressionar alunos ou amigos, mas porque aquilo fazia parte deles. E o que tento constatar com o retorno desta lembrança? Simplesmente se estas idéias são firmes o suficiente para resistir ao tempo, ao tempo que nos é dado para viver.

Imaginem a seguinte situação: uma mulher, de meia-idade, bonita, que vive um relacionamento aberto com seu companheiro, o qual apresentou estas idéias para ela, encontra-se sozinha dentro de seu apartamento e vai até o banheiro fazer suas necessidades básicas. Lá, decide tomar uma ducha. Abre o chuveiro e espera a água esquentar. De repente, por acaso, enxerga sua imagem nua refletida no espelho. O que ela vê? O que ela pensa? O que ela sente? Nenhuma idéia emprestada por outra pessoa pode habitar o nosso ser por muito tempo. E numa mulher, menos ainda.

“Na nossa sociedade, as jovens participam dos mitos masculinos do herói porque, como os rapazes, precisam educar-se e desenvolver uma personalidade própria sólida. Mas há uma região, ou uma camada mais antiga das suas mentes, que parece vir à superfície dos seus sentimentos para as tornar mulheres, e não imitações de homem. Quando esse antigo conteúdo da psique começa a aparecer, a jovem moderna tem a tendência de reprimi-lo, já que representa uma ameaça às suas mais recentes prerrogativas: a emancipação e a igualdade de competição com os homens”.(Jung)

Esta passagem contida em uma obra de Jung apareceu num momento oportuno. O tempo em que vivemos é um tempo triste. Por quê? No instante em que as mulheres tentam ser iguais aos homens ou buscam viver da mesma forma que eles, tornam-se homens. E uma sociedade só com homens tende a ser doente por falta de equilíbrio. É uma pena que o espelho carregado dentro de tantas bolsas não consiga refletir também aquilo que se esconde por trás da carne.

A sociedade pode mudar constantemente, mas a mulher não. O espelho mostra aquilo que ela é: nada. E ela sabe disso. A falta de segurança corrói sua beleza e seu coração. Ela precisa de uma casa, de um jardim, de cachorros, de abraços... de um futuro. Ela precisa zelar pelos outros. Quando Buda dizia ter medo e receio das mulheres, este temor tinha uma explicação: elas carregam a verdade da vida, e nelas esta verdade dói e aparece de forma mais nítida: a velhice, a doença e a morte.

domingo, 17 de abril de 2011

O desejo de fazer o bem... usando o mal

“– Não! - gritou Gandalf, levantando-se de repente. – Com esse poder eu teria um poder grande e terrível demais. E comigo o Anel ganharia uma força ainda maior e mais fatal. – Seus olhos brilharam e seu rosto se ascendeu como se estivesse iluminado por dentro. – Não me tente! Pois eu não quero ficar como o próprio Senhor do Escuro. Mas o caminho do Anel até meu coração é através da piedade, piedade pela fraqueza e pelo desejo de ter forças para fazer o bem. Não me tente! Não ouso tomá-lo, nem mesmo para mantê-lo a salvo, sem uso. O desejo de controlá-lo seria grande demais para minhas forças”. (Gandalf, O Senhor dos Anéis)

Quando Jung, em um de seus escritos chamado “A Luta com as Sombras” chamava a atenção para fatos curiosos que pôde observar ao analisar os sonhos de inúmeros pacientes alemães no ano de 1918, nunca imaginei que algo estudado há tantos anos pudesse hoje, quase um século depois, causar ainda uma impressão tão forte em mim. Causa, é verdade, mas por um motivo especial: o tempo não existe dentro de nossa mente inconsciente, e todas as informações e acontecimentos do passado continuam vivos em nós através do inconsciente coletivo.

Aqueles sonhos apresentavam aspectos em comuns - mesmo sabendo que aquelas pessoas não se conheciam ou que tinham histórias de vidas diferentes-, todos exprimiam primitividade, violência e crueldade. Porém, o seu oposto também aparecia constantemente, sob a forma de imagens que retratavam a ordem tão buscada depois da destruição e das misérias causadas pela Primeira Guerra. Mas afinal, o que tudo isso tem a ver com o desejo de fazer o bem... usando o mal?

Nestes últimos tempos tenho me feito uma pergunta muito curiosa: O que eu faria se tivesse o poder em minhas mãos? Ou ainda: No que eu acabaria me tornando, se minha vontade fosse lei? Tudo aquilo que Jung refletiu naquele período sobre algumas características incomuns que o povo alemão carregava consigo estão dentro de mim. O mesmo desejo de ordem e a mesma crueldade. Até onde eu sou uma pessoa virtuosa, que se preocupa de verdade com os outros? Sendo sincero, o meu pensamento não é meu.

Sim, é verdade, tudo aquilo que vejo me perturba e pensamentos estranhos tomam conta de mim. Quando o lixo é jogado no chão ou em direção às águas do rio... quando uma árvore é derrubada... as pessoas dormindo nas ruas... as crenças ridículas... os indivíduos inferiores, que são apenas um peso morto para a sociedade. Ter esta consciência do monstro existente dentro de mim me ajuda a evitar os mesmos erros do passado. Quantos não possuem os mesmos sentimentos? Quantos não sentem certo incômodo quando a ordem social é ameaçada?

Hora, eu desejo ter o poder para fazer o bem para outras pessoas. Quando assisto uma matéria no noticiário relatando a destruição da floresta amazônica ou do aumento da criminalidade nas grandes cidades, o que eu faria? Colocaria o exército lá dentro e aquele que for pego desmatando pagaria com a... e aqueles que roubassem ou matassem seriam... os culpados pela desordem social seriam mandados para os campos... Tudo com o intuito de promover a ordem e o bem-estar social. Tudo para me livrar do anonimato insuportável, do vazio, da morte, da minha própria mediocridade...

Eu gosto de conversar com minha própria Sombra. Quando penso sobre as questões envolvendo o surgimento do nazismo e os estudos psicológicos de Jung, ela torna-se menos escura. E evita que uma velha profecia volte a tornar-se realidade novamente: “No momento que esses símbolos aparecem e não são assimilados, eles começam a unir com força magnética os indivíduos isolados. Assim tem origem uma massa. Rapidamente surgirá o líder no coração daquele que possuir a menor força de resistência, a menor consciência de responsabilidade e que, devido à sua inferioridade, demonstrar a mais forte vontade de poder. Libertará das correntes tudo o que está em estado de irrupção e a massa o seguirá com a força arcaica e incontrolável de uma avalancha” (Jung).